Capítulo 1:


Eu olho no relógio e já são duas da madrugada


O inesperado nunca se contenta
Em somente ludibriar
Trazer um arrepio ou outro
Fazer sorrir quando tudo é tédio

O inesperado, quando vem,
É de afogar o samba da avenida
Ou de incendiar o mesmo samba
Num velho pub inglês

O inesperado não espera
Não mede tempo, conveniência
Nada disso é da sua natureza
Fugaz e intensa

O inesperado tantas vezes
Deixa muitos desesperados
Despreparados
Desalinhados

E por ser tão indomável
Delicadamente livre, é, assim,
Necessário
Solidário

Sem o inesperado
A vida seria muda.
Pois é o inesperado
Quem muda a vida


Lá estava ele. Mais uma vez debaixo daquele relógio. O mesmo relógio; na mesma estação; esperando no mesmo banco. Era uma rotina intrigante, parecia uma espera eterna. Passava dias na estação e lá ficava até o último trem passar. Seus olhos eram pesados e profundos, sempre miravam o horizonte no qual vinha o trem. Encarava pessoas recém-chegadas que passavam pela estação e logo volta seu olhar ao horizonte. Nunca realmente entendi suas razões, ele simplesmente esperava. Eram tempos de guerra quando começou a frequentar a estação de trem. Muitos falam dele, mas poucos realmente sabem de sua vida. Era um velho solitário de poucas palavras que guardava algo no coração. Talvez seja uma história de amor, ou talvez sinta-se solitário simplesmente. Afinal, enquanto envelhecemos perdemos a maioria de nossos entes queridos. As pessoas vão embora e naquela época era difícil manter contato. Cartas, por exemplo, demoravam semanas para chegar. Principalmente as de amor, que para os amantes demorava anos, décadas. Portanto, eram inesperadas. Simplesmente apareciam e deixavam um rastro de necessidades e solidão.

As nossas vidas são cheias de situações inesperadas. Do contrário, estaríamos exaustos em uma rotina degradante e permanente. Talvez o velho que vi na estação esteja esperando por algo. Algo que não necessariamente saiba o que é, mas sim algo que o tire da rotina. Provavelmente espera dia após dia por alguém que SE lembre dele e o faça lembrar de si mesmo; um raio de luz no escuro que ilumine sua vida; algo triste e o faça lembrar que ainda sente dor; algo feliz que o tire da inércia; algo inesperado.



Capítulo 2:


Marreco Amoreco


Marreco, você é tão apaixonante Que eu até ri do nosso horóscopo Prendi o cabelo como você gostava Fechei os olhos pra pensar em você

E o que mais me assusta
É que eu gosto de gostar de você
Mais que eu deveria
Mais que você gostaria

Será que é você quem eu amo
Ou é o amor que me fascina?

Você é mesmo fascinante...



Capítulo 3:


Quero ser velha com cheirinho de banho tomado

Todos temos um pouco de idoso Com o tempo esse pouco Vai virando muito
Envelhecer
É só isso:
Ter umas manias a mais
Com vigor a menos

A pele desajustando
As pelancas aparecendo
O cansaço suspirando de vez em quando

As gírias que ninguém mais fala
As invenções que você já não entende
A família que visita nos fins de semana

Só a sua vida, que te acompanha,
Te acompanhou desde sempre,
Vai te acompanhar pra sempre

O idoso é uma vida
Toda enrugadinha.




Capítulo 4



De quantos megapixels é a nossa resolução?



Minha garganta está emudecendo E eu nem comecei a falar Porque logo a bolsa de valoresAs empresas estatais, os jornais
Logo o senhor presidente dos Estados Unidos da América
Logo o carro, a marca, o ele
Troeletrônico da minha vida descartá
Vel logo o filme que estav
A passando no cinema logo o Wi
Lliam e a Fáti

Lo
Go eu
Logo v
Ocê
Eu...

“Não saia daí!
Logo a cerveja
E o futebol.”




Capítulo 5:



Cinco



São cinco os motivosDe minha desilusão Cinco pedras, cinco tiros Que me atravessam o coração

São cinco os passos
Que na escada devo dar
Pra subir em caminhada
N'alvorada te encontrar

São cinco, cinco apenas
Essas angústias tão pequenas
Sempre entre ilusões

Mas como fico calado
O sofrimento é ampliado
E cinco vira milhões




Capítulo 6


E se o sol não nascer amanhã?

O sol toda noite se põe, despeço-me dele então.
Mas sei que não mais a verei, despeço-me dela em vão.
Se o sol não mais voltar, porque ela voltaria?
Sei, porém, que ficará, e o sol volta todo dia.
À noite me vejo perdido em maguas nas águas passadas na beira do mar.
E se em dia me perco em tanta saudade, metade desiste à luz do luar.
Tão breve sumiu, num estante partiu, desaparecera nos mares daqui.
Tão breve sumiu, no instante partiu o meu coração, que a via sorrir.
Não mais a clareira do raio de sol que me faz ir além.
Por mais que eu não queira, o dia se vai quando a noite me vêm.
Sou daqueles que aqui fica, sou daqueles que diz "não".
Se uns vão, os outros ficam. Se uns ficam, outros vão.




Capítulo 7


A menina e o beija-flor



Por meio às tangerinas, notei seus olhos. Eram azuis como a tarde que partia. Cheguei de mansinho, pela folhagem. Enquanto ela rodopiava, de alegria talvez.

Ela logo deparou-se comigo
a pequena criaturinha que a espreitava.
Era eu, perdido aquele azul imenso de mar.
Logo fiquei mudo e mais uma vez parti.

Eu que tanta flor beijo,
Nunca beijei a mais encantadora delas.
O singular sabor do amor.

Todo ele era ela e o transbordava
Por suas suaves curvas.

Coração de beija-flor bate rápido
Porque andam sempre apaixonados.
Cada um deve ter uma flor especial para amar.

Assim, podem amar sempre,
viver rápido e morrer de tanto amor.



Capítulo 8:


Talvez fosse melhor canela

Na cafeteria da esquina, Num domingo qualquer, Entrei pedindo o de sempre Mas resolvi que queria menta
Pedi, então, um café com menta.
Ao descer as escadas,
Para devolver minha xícara
A atendente me perguntou:
- O que achou do pedido?
Respondi com um sorriso:
- Intragável, sem dúvida um horror
Olhou mais uma vez a xícara
E comentou:
- Mas está vazia, como pode
Ter bebido tudo?
Sempre pressa, repliquei:
- É que sempre esperamos,
No fundo,
Que as coisas melhorem.





Capítulo 9


Carnal



Delineia-me o traço Com suavidade e paixão Suspira de amor!
Antecipa minhas falas
E me completa!

Faça de mim sua emoção
Um pensamento carnal
Tudo aquilo que queira
Nada que saiba com certeza

Transcende meu ser
E minha essência!

Que eu seja um pedaço seu
E leve comigo seu coração
Quero tê-lo por toda a vida
Como amante de minha linha.

Deita-me onde desejar
E me recria!

Prova-me em deleite
Como se sentisse levemente
Meus lábios tocando os teus
Num coral de amores

Toma-me à boca
E me usa!


Capítulo 10


Teu Odor.



Para mim, o que tu és, Lembra um sussuro ofegante. Sua-me da cabeça aos pés, Soa-me um riso distante.

De dia, cheiras amor,
À noite vens-me paixão.
Em tudo assina o odor
Que me aumenta a percepção.

Joguei-me nesse tormento,
De onde nunca mais saí.
Até que veio o momento

Em que notei no meu estudo:
Não era tudo que cheirava a ti,
Mas eu que cheirava-te em tudo.




Capítulo 11:



Coração de Catavento.



Canto versos, catavento, Tu que não mais catarás. Pois catavas do lamento De outros ventos, no detrás.

Voou os sete mares,
Cantou os temporais,
O conto desses ventos,
Nos perfumes cardeais.

Me pegou desprevenido,
Quando o sopro retornou.
Pobre és tu, catavento,
Que, jamais, tanto catou.

E os versos que já cantara
Se ainda os canto, tanto faz.
Rimas não vão nem vem,
Rimas não rimam mais.